terça-feira, 27 de junho de 2017

Toda a Viena em 1 único dia!

Aconteceu em 10 de Junho de 2016.

Belvedere Palace

Neste dia, como de praxe, acordamos cedo e rapidamente nos arrumamos para poder aproveitar ao máximo. Como já sabia que Viena era uma cidade mais cara do que a média dos outros lugares visitados, planejei ficar menos tempo por lá. Este dia então seria uma maratona pela história de Viena, e da Áustria.

O café da manhã do Ruthensteiner hostel foi delicioso. Não só por custar apenas 3,9 Euros, mas acho que também foi o primeiro lugar que tomei café dá manhã acompanhado por amigos (no caso o Joan e Mike). E mineirinho como sou, não dispenso um dedo de prosa com uma xícara de café.

Mozart
A prosa, porém, veio com um pouquinho de pressa, pois tínhamos uma longa caminhada para chegar ao Albertina Platz (praça) até às 10 horas da manhã. Lá é onde iria começar a versão Vienense da Free Walking Tour. Ao contrário dos outros lugares onde fui, aqui o guia turístico era mais velho, um senhor aposentado que fez uma reviravolta na carreira.

A caminhada começou com um pouco de história daquela praça e da família real. Naquela região, no período feudal, havia muralhas que cercavam a cidade. Mas após com a evolução dos canhões do período da Idade Média até a Primeira Guerra (cada vez mais fáceis de transportar e devastadores), a muralha da cidade podia ser facilmente destruída num ataque. Isso para não falar na problemática do crescimento populacional. Então eles mesmos decidiram por retirá-la. No decorrer da caminhada também passamos pelas ruínas da antiga muralha.

Do Albertinaplatz seguimos para o Jardim Burggarten, onde há um Palácio Real que nunca fora habitado, um gigantesco borboletário, além de uma estátua de Franz Joseph I, imperador do império Áustro-húngaro que dominou toda a região da Áustria, Hungria, e Bohêmia (onde hoje é República Tcheca e Eslováquia). A Áustria já fora um país muito maior do que é atualmente, mas por ter perdido a Segunda Guerra, teve suas fronteiras redesenhadas pelos Aliados.

Placa "Aqui viveu Mozart"
Porém a principal atração do jardim sem dúvida era o monumento a Mozart: uma estátua imponente em frente a um jardim de rosas que formam a clave de sol. Essa estátua finalmente faz jus ao gênio que tem o local de seu túmulo desconhecido, por não pertencer à nobreza. Já me adiantando um pouco na caminhada, também conhecemos uma das casas onde morou o Wolfgang Mozart. Para eu que sou músico (amador) e curto as suas obras isso foi sensacional! Mas uma curiosidade, é que muitos lugares em Viena dizem “Aqui viveu Mozart” ou “Aqui viveu Beethoven”. A razão disso, é que eles eram péssimos vizinhos que tocavam música alta até tarde da noite (ainda mais Beethoven quando começou a perder a audição), e, portanto, eram despejados com frequência. Já imaginou ser vizinho deles e ter que ficar ouvindo, por exemplo, um senhor com audição debilitada tocando a quinta sinfonia centenas de vezes até achar o som ideal? Pois é, não parece uma coisa muito legal.

Após o jardim, passamos pela praça Maria Theresa em frente ao Museum Quarter, onde há uma estátua homenageando esta poderosa mulher que foi a única a reinar durante a dinastia Hasburg. Atravessando o antigo portão de entrada da cidade (algo como o Brandenburg Gate de Berlim), seguimos para a praça dos heróis (Heldenplatz). O Heroes Square de Viena tinha a mesma proposta daquele que vira em Budapeste. De um lado havia a estátua de Archduke Charles, primeiro homem a vencer uma batalha contra Napoleão, que até então era considerado invencível. Do outro a estátua do príncipe Eugene de Savoy, que dentre inúmeros feitos em batalhas, protegeu a Áustria contra a invasão do Império Otomano.

Palácio Hofsburg
Ainda em Heldenplatz havia o Palácio Hofsburg, antigo palácio real. Foi ali que, pela sacada, Hitler fez seu discurso de ocupação da Áustria para uma praça cheia de gente. Ao contrário de outros países, aqui a população não se escondia com a chegada do exército nazista, mas vinha prestigia-los... A explicação para isso, segundo o guia, era de que a Áustria, por ser um país que fala alemão, apenas ouvia-se as notícias e rádios da Alemanha. Elas apenas falavam coisas boas sobre o Partido Socialista, Hitler e o seu governo. Logo, as pessoas acreditam que ele era um salvador, e que traria mais empregos para o país. Honestamente eu não aceitei muito essa explicação, e de fato achei o povo Austríaco um pouco "cheio de si". Basta ver os recentes planos para construção de uma cerca de cem quilômetros de comprimento para impedir a entrada de refugiados e imigrantes.

Ainda na caminhada conhecemos importantes catedrais, além da história das aclamadas Imperatriz Elizabeth "Sisi", e a Imperatriz Maria Thereza, que por ter um marido sem "pulso firme" praticamente reinou no seu lugar.

Jardim em frente ao Parlamento
A caminhada apesar de ter sido muito interessante, não passou por todos os pontos previstos no folder. Ao final fomos a um Starbucks para tomar um café e organizarmos os próximos passos. Tomei um café Mocha com saudade da minha gatinha que tem o mesmo nome.

De lá fomos até o Parlamento, onde ao lado havia um jardim lindo cheio de rosas das mais variadas cores.

Assim como em outras cidades, o Parlamento aqui também fora criado no estilo grego, remetendo ao país onde surgiu a democracia. Consegui até identificar a estátua da deusa Atena e Apolo.

Paralmento da Áustria (Joan ali em frente)
No caminho pra o City Hall (prefeitura) passamos num trailer japonês e comemos um combinado de sushis. Não estava muito bom, mas foi uma refeição barata.

Se não fosse pelo aplicativo do Booking.com que indicava as atrações turísticas, jamais poderia dizer que aquele palácio escuro e gótico era a Prefeitura de Viena. O prédio se parecia com uma antiga catedral, ou até uma escola. Lá estava sendo montado algum evento de gala, então não ficamos muito tempo e continuamos nossa caminhada para o palácio Belvedere.

No caminho passamos no Opera House novamente para ver quais óperas estavam sendo apresentadas. E aqui vão as dicas: existem outras casas de ópera que muitas vezes tem um preço mais acessível por não serem uma atração turística. Outra dica é não comprar ingresso de cambista(s). Sempre tem vários cambistas vestidos com trajes típicos de ópera vendendo ingressos. Mas na bilheteria da casa é possível encontrar ingressos dos mais variados preços de acordo com a sua poltrona. Me lembro de ter visto algo entre 16 euros até 200 euros! Então colocamos no nosso roteiro voltar ali para assistir a ópera se desse tempo.

Passamos também, sem querer, na rua das embaixadas. Senti-me orgulhoso de ver a bandeira brasileira tremulando ao vento na nossa embaixada. Lembre-se que não se pode fotografar a embaixada dos Estados Unidos, e isso pode te causar sérios problemas (não me pergunte o motivo).

Palácio Belvedere
O palácio Belvedere foi para mim o grande ápice de Viena, e talvez uma das fotos mais bonitas que tirei. Este palácio era o refúgio de verão do príncipe, e hoje fora transformado num parque. São dois grandes palácios com um imenso jardim em volta, repleto de flores das mais variadas, belas fontes, e pássaros. Eu nunca tinha visto um corvo tão de perto! Em Belvedere também estava exposto a obra "Beijo" de Gustav Klint. Aproveitamos então o belo clima e sentamos por ali para descansar um pouco, pois já tínhamos caminhado bastante. O dia estava ensolarado, e o clima de fim de tarde estava excelente para fazer uma pausa naquela bela paisagem.

De lá voltamos para o hostel, usando o metrô pela primeira vez. Aproveitamos para comprarmos cervejas Erdinger super baratas, e salame na grocery store. Então fizemos uma pausa de trinta minutos para descansarmos e tomarmos um banho. Estávamos a caminho de nossa última parada turística e de lá iríamos ver a vida noturna de Viena.

Com as energias recuperadas, caminhamos até o palácio Schonbrunn com uma Erdinger na mão. Nessa hora Joan me contou bastante da sua experiência no Brasil e ele conhece mais do meu país, e da América do Sul do que eu. Mas aos poucos chegarei lá!

Schonbrunn Palace

Infelizmente chegamos ao palácio no exato momento em que ele fechou. Então apenas tiramos fotos pelo lado de fora da grade. Mas ainda assim deu pra ver que este gigantesco palácio era tão lindo quanto (ou até mais) do que o Belvedere. 

Pegamos o metrô e fomos então para Stephenplatz onde estava acontecendo a noite das igrejas abertas, um festival onde as igrejas convidam o público para conhecer seu interior, algumas com programação e servindo jantar para arrecadar dinheiro.

Andamos um pouco no centro mas não tinha muito movimento e não encontramos a nossa amiga Constanza, então decidimos voltar. No local onde havia as ruínas da antiga muralha da cidade havia uma muralha projetada com luz na parede, fazendo um efeito fantástico e nos mostrando de fato o quão imponente e grandiosa era a mesma.

Ophera House durante a noite
Compramos um khebab de frango e voltamos pro hostel para tomarmos nossa cerveja e comer um aperitivo. Logo Mike se juntou a nós e também fizemos amizade com a Michelle dos Estados Unidos. Conversamos e bebemos bastante, naquele clima legal de hostel. Ao final ganhamos um shot de vodka com pimenta da casa quando o bar estava fechando. Mais tarde as pessoas seguiram caminho para uma outra festa latina, mas já era duas da manhã e eu tinha que dormir para ir para Praga no outro dia, então recusei o convite. Essa energia positiva das amizades de hostel foi sem dúvida uma ótima experiência que tive tanto ali quanto em Berlin. 

Escrever é como reviver o sentimento, e eterniza-lo. Demanda tempo e dedicação, é claro. Mas poder ter essa sensação de curtir um pouquinho mais a viagem faz com que este blog seja muito especial para mim. Como já está fazendo um ano dessa experiência, e de lá até aqui ajudei amigos com dicas de viagem, nada melhor do que continuar esta história especial! Então venha comigo pois Praga está logo aí!...

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sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Viena, Museus, e grandes amizades

Aconteceu em 9 de Junho.


Death and Life - Gustav Klimt


Budapeste

Nos dias de pegar a estrada eu já estava acostumado a acordar ansioso. Ora para não perder o horário dormindo demais, e ora ansioso pelo que ainda havia para se conhecer. Dessa vez não fora diferente, e assim que o celular despertou, eu já estava de pé arrumando a cama. Antes de me encontrar com minha carona do Blablacar, eu precisava passar numa grocery store para comprar um vinho. Eu queria presentear minha mãe nessa viagem, e os vinhos Húngaros são excelentes e muito acessíveis.

Tomei o meu café da manhã como de praxe, e peguei minhas coisas para fazer o check out. Então me despedi do Daniel, o dono do hostel, que tinha me dado muitas dicas do que fazer.

Pátio do Museum Quarter - Viena
A minha amiga Rita também quis se despedir, e nos encontramos na entrada do meu hostel. Ela me acompanhou na compra do vinho, e também até encontrarmos a motorista que me daria carona. Por sorte a motorista estava a uma quadra dali, e fomos andando até o hostel. Como ela já tinha decido para tomar café, nos desencontramos e eu já comecei a ficar preocupado. No entanto a recepção do hostel dela (Historic Apartment) fez a gentileza de ligar no seu celular, e nos encontramos no café em frente. Eram duas jornalistas de Munich que estavam a trabalho em Budapeste: Daniela e Cathrim.

Enquanto elas terminavam de comer, me despedi de Rita e agradeci pela ótima hospitalidade que tive. Nós continuamos mantendo contato e até hoje em dia ocasionalmente conversamos sobre coisas filosóficas.

Ao entrar no carro eu estava empolgado por pegar estrada pela primeira vez durante o dia, pois poderia ir curtindo a paisagem e fazendo novas amizades, mas o meu cansaço foi bem maior e eu simplesmente dormi! As meninas no banco da frente foram conversando em alemão, então não pude interagir tanto. E assim, num piscar de olhos estávamos fazendo uma parada para abastecer, e logo mais a nossa viagem de quatro horas chegava ao fim e eu estava na capital da Áustria: Viena.

Viena

Pierre Café Bistrô
Pegar esta carona com as duas jornalistas foi uma “mão na roda”, como dizem no ditado popular. Não só nos encontramos muito perto em Budapeste, como elas me deixaram em Viena na estação Westbahnof, que ficava a 2 quadras do meu hostel. Nem indo de ônibus eu conseguiria tanta facilidade assim!

Ao me despedir delas, caminhei até o hostel Ruthensteiner, curiosamente avaliado (na época) como o lugar número 1 para se hospedar em Viena, estando na frente de hotéis cinco estrelas e tendo um ótimo preço.

Tão logo fiz o check in, subi as escadas para guardar minhas coisas no armário e conhecer o meu quarto. Foi então que conheci meu colega de quarto Joan, da Itália. Ele já havia morado no Brasil por um bom tempo, e conhecia muito mais do país do que eu.  Logo ele falava e entendia português perfeitamente. E com cinco minutos de conversa, pegamos afinidade e decidimos ir caminhar juntos pela cidade. Como eu sempre digo, eu gosto dessa “magia” do hostel, onde se faz uma amizade com facilidade.

Leopold Museum
Na recepção procuramos informações de free walking tour, e bicycle tours, mas nenhuma das duas aconteceria nas próximas horas. Então decidimos caminhar por conta própria pela principal rua comercial da cidade (Mariahilfer Straße), onde havia restaurantes, shoppings, e as principais lojas da cidade. Conforme a fome bateu, encontramos um restaurante austríaco chamado Pierre Café Bistrô. Aqui o Joan me ensinou uma importante lição de vida: Parar de ficar tentando traduzir o menu, e pedir o especial do dia! Assim comemos um delicioso espetinho de frango, com pimentão, bacon e cebola, acompanhados de sopa de frango com macarrão e uma caneca de chope Gösser (maior cervejaria austríaca, do grupo Heineken).

Saindo de lá caminhamos até o centro histórico da cidade, onde fomos ao Museum Quarter. Assim como em Berlim, o de Viena também era um complexo com diferentes museus. Todos eles pareciam grandes palácios e o pátio que dava acesso a eles se parecia com um intervalo de faculdade: pessoas conversando, deitadas, usando o celular e descontraindo o tempo.

Berlinde de Bruyckere - Leopold Museum
O Joan estudou arquitetura, então visitamos três galerias. A primeira fazia uma paralelo de como a arquitetura foi evoluindo com a história em Viena, citando diferentes fatos históricos como: construções baratas no período comunista, estilo da época, e como a arquitetura da cidade era afetada por guerras e conflitos. A exposição em sua maioria são fotos e textos, então talvez não seja muito interessante para o público em geral. Mas eu gostei de poder fazer comparações com a mesma história e arquitetura que aprendi nas demais cidades.

Em seguida, fomos numa exposição que mostrava os melhores edifícios do ano na Europa, premiados em um concurso de arquitetura. Alguns eram conceitos bem inovadores, mas honestamente, ver as maquetes dos lugares não empolgava muito, e essa exposição foi um pouco cansativa.

Theodor Von Hörmann

Mas o grande carro chefe da nossa visita foi a Galeria de Arte Leopold Museum: um complexo de quatro andares com exposições de diversos artistas famosos, além de outras obras da coleção da galeria. É claro que não somos nenhum especialista em arte, mas ficamos chocados e encantados com a variedade de obras que vimos. Vou tentar passar um breve sentimento de cada um aqui...

A começar pela Berlinde de Bruyckere, uma artista belga com exposições de estátuas macabras de animais e do corpo humano. Sempre deformado e grotesco... Foi um grande choque para mim, que não estou acostumado com arte moderna.

Theodor Von Hörmann  - Construção da Torre Eiffel
Já a de Theodor Von Hörmann foi para suavizar, já que ele se especializou em pintar paisagens e suas obras contam muito da história de Paris e Viena. Foram belos cenários que variam de acordo com a época em que eram pintados. No final de sua carreira, começou a se interessar por flores, fazendo quadros ainda mais ricos em detalhes.

As estátuas de Wilhelm Lehmbruck contam muito de seus problemas amorosos e familiares, apresentando sempre a figura feminina como um mistério. O segurança estava no nosso pé nessa hora, e não possível tirar muitas fotos. Mas todas as esculturas eram riquíssimas em detalhes e mistério.

Já a exposição de Egon Schiele, que faz parte da coleção Leopold, é uma exposição cheia de autorretratos, nudez, e críticas pessoais. Esta é a maior coleção sobre Egon no mundo, que vai desde o prodígio no início de sua carreira, ao período expressionista, e a sua morte. A coleção ainda está em exposição na data de publicação deste post.

Wilhelm Lehmbruck
No entanto o destaque da galeria, e o queridinho de todo o público é o pintor Gustav Klimt, o maior e mais influente pintor da Áustria no período de 1900. Com famosas obras como “Morte e Vida” e “O Beijo” (que não estava exposta ali no dia), o extenso trabalho deste pintor é encantador, com muita complexidade e beleza nos traços.

Eu não sou nenhum especialista em arte, mas essa visita sem dúvida foi especial. Vou deixar um curto vídeo sobre a galeria, e o link do site oficial onde eles falam sobre as exposições e resenham obras que já passaram por lá. Caso tenham interesse confiram aqui: Leopold Museum.

Ao sairmos do Museum Quarter, já era o final de tarde. Nós fizemos um caminho diferente para voltar para o hostel, passando pelo Naschmarkt, uma rua que funciona como um mercado municipal de Viena, com vendas de produtores e muitos restaurantes conceituados. Infelizmente, devido ao horário, a grande maioria dos lugares já estavam fechando. Então seguimos o caminho e fomos comer em outro lugar.




De volta à região do nosso hostel, as grocery stores próximas estavam fechadas. Então pegamos um khebab grande por apenas cinco euros, e levamos para comer na cantina do hostel. Pela minha experiência no primeiro dia em Berlin, já sabia que os khebabs são deliciosos! Ao sentarmo-nos à mesa da cantina, conhecemos uma chilena chamada Constanza (que também é blogueira, vai lá visitar ela também).

Egon Schiele'
Eu meio as nossas rodadas de chope, o Joan nos ensinou a jogar um jogo de cartas chamado Bakará (uma espécie de Blackjack onde a unidade é importante). Ao bom e velho estilo alemão, as canecas de chope de meio litro desciam facilmente!

Você já pode imaginar a bagunça de se juntar uma chilena, um italiano, e um brasileiro, correto? Nossa conversa foi de portunhol, italianês, e tudo o que você pode imaginar, menos inglês. Logo depois chegou o Mike, da Etiópia, que também falava um pouco de tudo. Para ser sincero, no início da viagem eu até queria gastar bastante meu inglês, e até fiquei com um pouco de receio de falar em português. Mas some a isso o fato de que o barman (Vitor) era brasileiro, e havia um português trabalhando no hostel, e pronto! Nessa grande mistura, em meio a improvisações e se comunicando como dava, conseguimos nos interagir muito bem. Ao final tive uma sensação de orgulho, de ser um cidadão do mundo, ser parte de algo maior.

Exposição Viena 1900
Ainda pra completar a mistura nessa noite, uns indianos muito malucos queriam jogar poker apostando dinheiro, e um jogo chamado oneflash (ninguém aprendeu a jogar). E por final apareceram duas espanholas chamadas Marta. Percebi que o espanhol da América do Sul é bem mais fácil de entender do que o da Espanha de fato.

Toda essa conversa, cerveja e jogos seguiram madrugada afora! Logo no primeiro dia de Viena nós já éramos amigos dos funcionários do hostel, e para todos que viam eu, Joan e Constanza perguntavam: “Há quanto tempo vocês três estão viajando juntos?” de tão rápida e natural que foi nossa interação!

Eu mal tinha chegado em Viena, mas já sabia que nessa cidade o que mais me marcaria não seria o passeio turístico, mas sim a amizade que fizera no hostel Ruthensteiner. Um agradecimento especial nesse post ao Joan, que lembrava o nome da maioria dos lugares que visitamos, e que perdeu no Bakará =)


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No próxmo post: Viena em 1 dia: uma visão geral dos acontecimentos históricos, palácios reais, seus imperadores, e grandes compositores como Mozart e Beethoven! Não percam! 

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sábado, 26 de novembro de 2016

Terrorismo, Heróis, e Banhos Medicinais

Aconteceu em 8 de Junho.

Király Bath - http://en.kiralyfurdo.hu/

Neste dia acordei um pouco mais cedo do que de costume. Como se tratava do meu último dia em Budapeste eu estava ansioso para aproveitá-lo ao máximo! Enquanto tomava meu café da manhã troquei mensagens com a Rita e combinamos de nos encontrar na grocery store Deak Prime, que ficava meio do caminho para os dois.

Opera House - http://blog.kenkaminesky.com/
De lá começamos o nosso roteiro passando primeiramente pela Opera House, que nesses dias não tinha nenhum espetáculo sendo exibido. Mas o interior da Casa de Ópera era luxuoso e gigantesco, com toda a pompa que se espera de uma ópera. Infelizmente minhas fotos não ficaram boas, mas vou deixar aqui uma foto do palco que encontrei na internet.

Saindo de lá fomos ao Museu House of Terror (Casa do Terror), que fica no mesmo prédio que já fora usado como base dos Nazistas e dos Soviéticos em períodos diferentes de ocupação na Hungria. Eu sei que eu falo bastante da Segunda Guerra, mas viajando pelo Leste Europeu é quase impossível não se envolver com essa fascinante história. E este museu em especial fora fortemente recomendado pela guia de ontem pela sua riqueza de detalhes.

House of Terror
E realmente a visita é de tirar o folego, pois fora cuidadosamente preparada com objetos da época, imagens, vídeos e até vestimentas. Tudo acompanhado de uma música macabra de fundo, com diferentes depoimentos nas telas que causavam um impacto muito forte. Mesmo as principais informações estando em Húngaro, havia folhetos em inglês contando a história de cada período. Fiz questão de pegar todos eles para fazer depois o meu dever de casa e me aprofundar nesse período da história.

O que mais me impressionou nessa visita foi esse aspecto visual tenebroso. Logo na entrada havia um tanque de guerra. Enquanto descíamos o elevador rumo ao porão que era usado como uma prisão, o elevador se movimentava lentamente ao som de uma música de suspense e um depoimento de um torturador de como as vítimas eram executadas enforcadas. Tive nesse momento uma indescritível sensação de que a qualquer momento o piso do elevador iria se abrir e iriamos cair numa armadilha.

Escritório intacto - Ao fundo retrato de Stalin
O porão (ou calabouço) era tão macabro quanto. Alguns cômodos foram mantidos intactos. Ver aqueles quartos escuros e úmidos com uma atmosfera pesada rapidamente me lembrou de Auschwitz. Recomendo dar uma olhada na galeria de fotos no final para ver a quantidade de artefatos que estavam expostos. Apesar de ter passado rapidamente pelo museu, se fosse ficar para ouvir todas as histórias e absorver todos os detalhes, era possível gastar uma manhã inteira lá (coisa que eu não tinha).

Então continuamos a caminhada para o Heroes Square (Praça dos Heróis), onde havia estátuas de figuras importantes na história do país. Dentre elas estavam os líderes das sete tribos pagãs que originalmente se uniram num pacto de sangue para formar o país Hungria. Achei louvável honrar os líderes fundadores da nação como heróis, e inevitavelmente fiz um paralelo com o Brazil. Da forma como o nosso país foi colonizado, pouco se sabe da cultura indígena, mas seria muito legal poder relembrar dos nomes dos líderes indígenas que fundaram nossa nação como verdadeiros heróis, e não apenas como selvagens. O interessante da Heroes Square foi poder ensinar essa história para a Rita, que apesar de já morar em Budapeste há algum tempo, ainda não conhecia suas origens. Fiquei me sentindo um guia turístico contando isso para uma moradora local!

Heroes Square
Logo ao lado da Praça conhecemos o interior do Castelo Vajdahunyad, que fora construído em celebração aos 1000 anos de Hungria. Em volta do castelo também há um lindo parque, onde os moradores locais gostam de fazer piqueniques e relaxar. Nessa hora eu me lembro de comentar com a Rita que eu queria poder contar as histórias da minha viagem em um blog. Ela ficou muito animada e me deu o maior incentivo! E não é que eu fiz?

Saindo do parque passamos numa cafeteria turca chamada Café Kara, onde tomamos um expresso saboroso, e um delicioso doce turco chamado Baklava, que é uma espécie doce com massa folhada. Lá conversamos mais e eu pude saber um pouco da história da minha amiga. Contei para ela sobre o Brasil e ela gostou de saber que nosso dinheiro está estampado o rosto de uma mulher, a Princesa Isabel. De lembrança eu a dei uma nota que tinha ali comigo.

Heroes Square
Ela tinha trabalho a fazer, então depois do café nós nos despedimos. Combinamos de nos encontrar mais tarde pra fazer algo (se a internet colaborasse), e eu prossegui com a minha jornada pela cidade.

Ao tentar procurar um lugar para comer, usei o app TripAdvisor, que permite procurar por restaurantes mesmo off-line. Porém depois de me deparar com dois que estavam fechados, eu decidi pegar um lanche mesmo e atravessar a ponte Margareth, que não apenas liga os dois lados da cidade, mas também dá acesso a ilha de mesmo nome.

Eu não pude deixar de parar para conhecer a Margareth Island então, que é uma enorme ilha transformada num parque e muito visitada pelos moradores locais. Para todo o lado na ilha se via grupos escolares de crianças, casais de namorados, grupos de amigos, família, todo o tipo de gente! Aquele era um local muito agradável. Havia jardins de diferentes flores de todas as cores, e fontes de água que formavam os mais incríveis desenhos dançando no céu. Como minha agenda estava apertada, eu apenas fiquei para tirar algumas fotos e continuei para o lado Buda da cidade.

Castelo Vajdahunyad

  
Budapeste é uma cidade muito famosa também pelos Banhos Medicinais, que são uma tradição turca trazida no período de dominação sob o Império Otomano. Eu não sabia o que esperar do tal banho, mas como todos gostam, escolhi ir à casa de banhos Király, que é a mais antiga e a menos movimentada da cidade. Afinal o banho era para relaxar, e não pra ficar desviando dos turistas. A casa era originalmente frequentada pelo rei e a nobreza, mas hoje em dia era aberta ao público.

Margareth Island
Como vocês podem imaginar, eu não levei a câmera para o interior da casa (isso seria estranho) mas o interior dela tem um aspecto medieval, e havia diferentes piscinas e saunas de diferentes temperaturas. A principio eu entrei numa piscina de 35ºC e fiquei ali curtindo, e encantado pelos feixes de luz que desciam do teto (veja primeira foto), mas sem entender o conceito do banho em si. Mas com o tempo eu fiz amizade com a Lilla, uma húngara muito simpática que adorava o lugar, e começou a me ensinar. Os banhos repletos de minerais têm uma série de benefícios como condição da pele, circulação sanguínea, diminui a retenção de líquidos, além de renovar as energias pela absorção dos nutrientes, minerais, e o choque térmico. Para aproveitar melhor os banhos o segredo era alternar entre saunas e banhos de quente para o frio, provocando o citado choque térmico no corpo. Isso relaxava os músculos, e somado a jacuzzi com bolhas no final, me fez curtir a tarde afora numa boa conversa.

Conversamos sobre muitas coisas, e sobre a vida na Europa. Lilla também exerce a mesma profissão que eu no Brasil, portanto deu pra ter uma boa ideia de como era a vida por lá.

Fonte romântica em Margareth Island (casal aleatório)
Passado horas e horas na água, já com os dedos definhando (sério!) e uma tremenda fome, decidimos ir comer algo. Voltamos então para o quarteirão onde ficava o meu hostel, ao lado do Szimpla, no Karavan Street Food, onde havia vários food trucks oferecendo uma variedade de comidas locais. Seguindo o conselho da Lilla e peguei um Lansgo, que é uma massa frita coberta com muito queijo e molho! O prato é muito saboroso, mas era tão grande e pesado que até guardei para a janta.

Depois que comi me despedi de minha amiga para ir ao hostel, onde finalmente tive internet novamente. Eu aproveitei para tentar entrar em contato com a Rita, mas não consegui, então comecei a fazer amizade com o resto do pessoal do hostel. Além do Jason, de Hong Kong, também estava no meu quarto o Rodrigo, da Argentina. Ele me mostrou fotos de um lugar incrível no seu país onde a vegetação verde se mistura com o gelo da Antártida! Enquanto arrumava minha mala e planejava minha saída de Budapeste, conversamos sobre coisas diversas como a diferença entre a cultura da América do Sul e na Ásia, sobre nossas aventuras na viagem, e nossos planos para o futuro.

A conversa estava tão boa que decidimos ir a um bar comprar cerveja. Nós entramos de pijama num bar de rock (e eu sou fã de rock) e acredito que o dono do bar não gostou muito da idéia. Ele nos cobrou um preço absurdo pelas cervejas e só avisou o preço depois que elas já estavam abertas. Ao final nos sentimos enganados (ou o famoso termo em inglês ripped off), mas a cerveja estava ótima.

Margareth Island
De volta para o hostel, mais pessoas se juntaram a nós: (se não me falha a memória) um francês, um espanhol, e uma senhora holandesa. Eu contei para eles o quanto aprendi da cidade, e eles ficavam todos espantados! A parte engraçada da noite foi quando o francês saiu do hostel e não conseguiu abrir a porta para entrar. Ele ligou no celular de emergência, que estava no salão principal, e não havia ninguém na recepção. Eu atendi e disse: “Amazing Hostel how may I help you?”. No final ele conseguiu entrar, e todo mundo ficou tirando onda da minha desenvoltura de atender. Acho que este é afinal um comportamento bem brasileiro, mas que causou boas risadas.

Ao final me dei conta de como Budapeste é um lugar muito fácil de andar, onde as atrações turísticas são todas próximas. Acredito que esta tenha sido a cidade que mais caminhei (cerca de 15km por dia). E ainda assim chegando ao final tive a sensação de que havia muito mais a se fazer: as cavernas subterrâneas, o labirinto do Castelo Buda, e muitas outras coisas. Budapeste e seu clima ensolarado sem dúvida me encantaram da mesma forma como Berlim, na sua forma acolhedora. Ficar alguns dias em uma cidade é pouco para se conhecer tudo o que ela tem para oferecer, mas acho que eu aproveitei bem. Fui dormir com o sentimento de que poderia ficar ali por mais algumas semanas... Mas dessa vez a despedida não seria saudosista. A esse ponto eu já começava a entender melhor essa dinâmica de uma viagem. Não importasse o quão divertido fora, sempre haverá algo mais para se explorar e tudo o que aprendemos, levamos conosco. E às vezes, colocamos num blog também...


Não perca no próximo post: Leopold Museum e a exposição de Gustav Klint em Viena.

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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Budapeste Comunista, e A Estátua da Liberdade

Aconteceu no dia 7 de junho.

Estátua da Liberdade (olha eu ali)

Na minha primeira noite em Budapeste havia dormido muito bem! Eu sou uma pessoa fácil de se adaptar em outros ambientes, mas também as camas do Amazing Hostel eram muito confortáveis. E por falar em conforto eu havia planejado minha viagem para carregar pouca roupa, o suficiente para metade do percurso. Há pessoas que viajam ainda com menos! Mas para a minha primeira experiência eu já estava orgulhoso. Pois bem, o Hostel também tinha o serviço de lavanderia por uma taxa bem simbólica (isso tudo pode ser pesquisado antes), e enquanto minhas roupas estavam na máquina, aproveitei para ir numa grocery store comprar o café da manhã: alguns pães, frios, e suco. Seria o suficiente para lanchar nas horas vagas, e custou uma bagatela. Ao voltar ao Hostel vi que a recepcionista fez a gentileza de pendurar as roupas varal pra mim, o que achei muito legal da parte dela. Então eu apenas comi e já me arrumei para a caminhada.

Great Market
Dessa vez a caminhada passaria pelo outro extremo da cidade. Eu estava interessado em subir o morro da Estátua da Liberdade (calma, não é a sua EUA). No caminho vi um senhor vendendo discos de vinil na rua, coisa que adoro e não se encontra com facilidade no Brasil. Mas me imaginar colocando um disco na mochila me fez desistir de procurar, afinal eles são frágeis.

Minha próxima parada foi no Great Market, que era um mercado municipal tradicional, onde vendiam desde vinhos, especiarias, a hortifrutis, realmente de tudo. Eu dei uma volta por algumas lojinhas e achei o lugar muito acolhedor, com uma atmosfera de simplicidade é carisma. Não só os preços eram ótimos mas também os vendedores eram atenciosos. Eu só não comprei nada dessa vez pois eu ainda teria uma longa caminhada, e não me imaginaria carregando um vinho morro acima.

Liberty Bridge
Depois passei pela Liberty Bridge, que era conhecida também por ser possível subir nela (na base do improviso) e relaxar curtindo a vista.

Preciso fazer uma pausa pra falar sobre a Estátua da Liberdade, vem comigo... Quando a Hungria estava sob regime socialista, foram construídos inúmeros monumentos em homenagem a Stalin, e ao comunismo. Todos esses monumentos (quase todos) no entanto foram destruídos ou devolvidos à Rússia. A Estátua em questão está no alto de uma colina, e é o ponto mais alto de Budapeste (de toda a cidade é possível vê-la). Ela foi criada também como um símbolo de vitória do comunismo no país. Devido a sua beleza, decidiram manter a mulher de braços erguidos segurando uma vinha, porém retiraram a simbologia do comunismo nela. Então cobriram a estátua com um grande lençol branco, e depois a "rebatizaram" como Estátua da Liberdade, agora um símbolo de liberação da Hungria (ou um abridor de garrafas gigante para os íntimos).

Morro para a Estátua da Liberdade
O parque em volta do morro para se chegar ao topo era lindo. Havia até pessoas parando no meio do caminho para fazer piquenique e tirar fotos, e aparentemente poucas pessoas faziam aquele caminho. A maioria preferia pegar o ônibus turístico chamado Hop on Hop off, que te leva nas atrações. Particularmente não sou muito fã dessa ideia de ônibus pois acredito que o trajeto também está cheio de histórias e aventuras a se lembrar, e viajar não se trata apenas de tirar fotos em lugares turísticos.

Ao chegar ao topo depois de uma linha subida debaixo de um sol forte eu olhei para estátua imponente de braços erguidos e ela parecia me saudar pela chegada. Eu levantei meus braços de volta para a Estátua da Liberdade, e respirei o ar do ponto mais alto da cidade. Um ar com um gostinho de vitória pela caminhada, e uma sensação de liberdade ao curtir a vista da cidade.

Atrás da estátua estava a Citadela, que eu criei muita expectativa para ver mas estava fechada. Ainda no alto do morro, logo ao lado desses dois monumentos estava um belo parque onde se localizava o Jardim da Filosofia (Garden of Philosophy), onde não havia muita gente e eu me permiti ficar um pouquinho em silêncio, bebendo uma água e curtindo a atmosfera do local.

Vista da Estátua da Liberdade
(Elizabeth Bridge lá embaixo)
Na volta eu desci pelo outro lado do morro, que é menos íngreme e tem estradas para acessos dos carros. Passei por uma área urbana e andei até a Elizabeth Bridge, ponte em homenagem a Rainha Elizabeth da Bavaria, famosa rainha do império Austro-Húngaro que eles adoravam. Como não era diferente das demais pontes, a Elizabeth também era majestosa e dava uma bela vista do rio Danúbio e de ambos os lados da cidade.

Eu estava voltando para Peste, para o ponto de encontro da Free Walking Tour, para dessa vez me juntar a Tour Comunista. Essa caminhada fez uma análise bem detalhada na história do país no período da Ditadura Comunista, enquanto andava pelas ruas e via ainda os reflexos de sua passagem. Independente da sua visão política vale a pena conhecer como foi esse período negro na história da Hungria (e do leste Europeu).

No regime de Stalin todas as pessoas tinham que trabalhar, e era crime não ser um trabalhador. Para de ter uma ideia a polícia parava as pessoas na rua e pedia pela carteira de trabalho, e quem não tinha a carteira registrada era preso. Como todo o sistema era focado em produção/industrialização, houve-se muito desmatamento nessa época, bem como depreciação da cultura e da filosofia.

Arquitetura do período comunista
A arquitetura das casas era a mais pobre e simples possível, pois as construções nesse período visavam economia e não conforto e qualidade. Eram em tons cinzas e tristes. Ainda era possível ver alguns prédios feios desse período que não puderam ser demolidos, pois ainda são habitados. Inclusive um deles fica ao lado da Basílica St. Stephen (a mais importante da cidade), dando um contraste bizarro a um dos mais importantes cartões postais da Hungria.

E por falar na Basílica, nesse período as igrejas pararam de funcionar, pois a religião ia contra os ideais do movimento. Os templos eram muitas vezes transformados em clubes com piscinas, e lugares de recreação. Devido a sua localização geográfica (longe da URSS), a Hungria ainda teve um regime comunista mais “light” do que comparado a Rússia e a Romênia, onde pessoas passaram fome.

Antiga rodoviária (as malas eram colocadas em cima)




Toda a indústria do país produzia apenas ônibus que seriam utilizados em toda a URSS. Esses ônibus são ainda hoje utilizados naquele serviço turístico mencionado antes “Hop on Hop off”, pois são abertos em cima. Nós passamos por uma antiga rodoviária que um segundo andar, onde as pessoas iriam subir para colocar as malas em cima dos ônibus (veja foto). E por falar em ônibus saiba que as pessoas eram proibidas de viajar ou do regime comunista. Quaisquer férias em família só poderiam ser passadas por ali mesmo, nos países sob o domínio da URSS.

Monumento aos Judeus
Após conhecermos alguns prédios ainda habitados que eram evidência dessa história, e ouvirmos a história dos apuros que a família da nossa guia (que era húngara) já passara, paramos em um monumento controverso que o governo inaugurara recentemente para homenagear os judeus mortos na segunda guerra. Havia até uma ativista entregando folhetos explicando a tal controversa. A Hungria foi aliada da Alemanha na segunda guerra mundial, e como tal enviou judeus aos campos de concentração. O monumento é um anjo segurando um globo dourado, enquanto uma águia dá um voo rasante. A interpretação mais óbvia, claro, é de que o anjo é a Hungria entregando os judeus (globo de ouro) a águia (Nazismo). O protesto, no entanto, era pacífico.

Em seguida fomos a um dos únicos monumentos soviéticos que não foram removidos, na Praça da Liberdade. Este obelisco com o símbolo soviético foi erguido em homenagem aos soldados do exército vermelho que morreram na libertação da Hungria do Regime Nazista. Um acordo foi feito entre o governo e a Rússia manteve o monumento na praça, indo contra a vontade de muitos húngaros. Mas em contrapartida, há ali estátua de Ronald Reagan, erguida em parceria com o governo dos Estados Unidos. Reagan está de frente para a praça da liberdade, e de costas para o Parlamento, como se estivesse ali vigiando os soviéticos e defendendo a democracia.

Ronald Reagan
Ainda em direção ao parlamento passamos pelo monumento de Imre Nagy, antigo primeiro ministro considerado um herói contra o comunismo. Ele foi executando na luta contra o comunismo e se tornou um mártir. Sua estátua está olhando em direção ao Parlamento, em uma ponte escorregadia que liga a praça da liberdade ao Parlamento. A mensagem desse monumento com a ponte simboliza o quão árduo é o caminho do comunismo ao capitalismo. E Imre Nagy está no meio desse caminho, pois ele morreu sem ver seu sonho realizado.

Encerrando a Tour Comunista conhecemos o Parlamento, e vimos as marcas de balas de canhão da revolução de 1956 nas colunas do Ministério da Agricultura, que ficaram registradas numa exposição deste dia de terror no subsolo da praça.

Os Sapatos no Danúbio
Depois dessa caminhada cheia de fatos históricos, despedi-me dos amigos que fiz na tour e comecei a me programar para almoçar, pois já era tarde. Passei pelas margens do Danúbio para ver mais um belo monumento chamado “Sapatos do Danúbio”, em homenagem aos judeus que foram forçados a se jogar no rio sem seus sapatos. Isso era uma forma de humilhação, pois morrer sem seus sapatos era o mesmo que morrer sem sua dignidade.

Por recomendação da guia da caminhada, as sete horas da noite, estava eu a caminho de almoçar no restaurante Frici Papa. Foi então que vi uma garota alimentando uns gatos de rua, e achei o gesto muito bonito. Parei para observar e começamos a conversar. Seu nome é Rita, e ela é uma turca morando em Budapest. Em poucos minutos de conversa nos demos muito bem, e trocamos celulares. Ela se ofereceu para me apresentar a cidade no dia seguinte.

Parlamento
O almoço no Frici Papa foi delicioso e muito acessível. Por uma bagatela de 1400 florins (ou 4,5 euros) eu comi um prato delicioso de bife de goulash com macarrão e uma taça de vinho. O restaurante tinha pinturas renascentistas na parede e era um lugar muito agradável.

De volta ao hostel após um longo dia de mais de quinze quilômetros de caminhada (já peço perdão pelo post extenso), comecei a planejar meu último dia em Budapeste. No meu quarto conheci um garoto de Hong Kong chamado Jason. Ele havia acabado de fazer 18 anos e nunca havia ido num bar. E adivinhem quem foi o percursor da sua vida boêmia? Sim, este que voz escreve. Rapidamente lhe disse que estávamos no mesmo quarteirão do Szimpla, um dos melhores bares do mundo, e que este seria um lugar bacana para ele conhecer. Ele aceitou meu convite! O bar estava abarrotado de gente de todos os tipos e todos os lugares do mundo, e Jason tomou o seu primeiro chop com um brasileiro que provavelmente ele não iria se lembrar do nome no futuro, mas certamente se lembrará de como se divertiu. Também conversamos com algumas garotas (o que era difícil para ele) e depois nos encontramos com a Leslie, da recepção do hostel.

Monumento a Imre Nagy (repare como a ponte é irregular)
E apesar de rápida, a nossa noite foi bem divertida. Afinal, após um longo dia cheio de caminhadas, aventuras, e muita cultura, não era de se espantar que as minhas energias chegassem à reserva cedo. O bar ainda estava cheio quando saímos, e voltamos para o hostel. Essa experiência que vivi certamente não pode ser tirada somente dos livros, pois estar no lugar e ver as suas mudanças é algo sensacional. Eu ainda iria aprender mais sobre as cicatrizes do comunismo nas cidades que ainda estavam por vir, mas algumas das adversidades passadas na Europa há cerca de trinta anos atrás acontecem de forma similar no nosso país. Isso me ajudou a refletir e entender a situação em que nossa nação se encontrava. Não que vou comparar o Brasil a uma ditadura, longe disso. Mas somos uma democracia nova, e ainda estamos passando por um processo de transformação que já fora vivido em lugares como a Hungria. Mas não se preocupe, eu não vou me prolongar no assunto de política. Pelo menos não aqui. Pois agora eu já estava de volta ao hostel, e me programando para acordar cedo e iniciar meu último dia em Budapeste. Acredite, eu fiquei bronzeado em plena Europa!

O pessoal do hostel fez a gentileza de dobrar minhas roupas que estavam secando e colocar em cima da minha cama. Com as energias que me restavam, guardei-as na mala, programei o relógio para despertar, me deitei para ter uma ótima noite de sono.


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terça-feira, 11 de outubro de 2016

Explorando Budapeste

Casa do Tesouro
Cinco e meia da manhã o motorista do ônibus me cutuca avisando em algum idioma desconhecido que havíamos chegado. Ainda meio desnorteado, olhei em volta e fiquei esperando o cérebro processar o próximo passo. Dessa vez já estava mais preparado, pois já tinha aprendido a usar o Google Maps pra me localizar e feito o download dos mapas de Budapeste.

Pra minha surpresa a rodoviária era relativamente perto do hostel, devo ter andado por uns trinta minutos. Passei pela arena de esportes Groupama, a segunda maior da Hungria, bem como pelo belíssimo edifício Casa do Tesouro da Hungria, com o seu telhado todo decorado. Já estava me sentindo no clima de Budapeste. Uma cidade romântica e linda onde o sol já brilhava bem cedo.


Eu não sabia que a recepção do hostel abria somente às nove horas. Esperava apenas isso não se tornasse um problema pra sair à noite, mas de fato não foi. Fui então pra estação de metrô e saquei florins equivalente a 96 euros no ATM.

Comprei uma baguete de frango empanado muito gostosa e uma garrafa d’água. Então, fiquei esperando o McDonalds abrir para comprar um café, usar o banheiro, WiFi e carregar o celular. Apesar de ter toda essa infraestrutura, eu sempre gosto de comprar algo pra ficar usando a WiFi sem parecer ser folgado. Com a internet, aproveitei para contar as notícias para alguns amigos que estavam madrugando no Brasil, pagar o aluguel do mês online, e voltar a usar meu chip brasileiro com WiFi. Com toda essa tranquilidade eu estava me sentindo muito bem em Budapeste (até agora a minha chegada mais tranquila em uma cidade).


St Stephen Basilica
O Amazing Hostel foi adaptado num antigo prédio comercial bem no coração da cidade. A proposta do hostel lembra bastante à ideia dos ruined bars que eu veria depois... Ambiente todo decorado, cheio de personalidade. Logo que cheguei descobri que a recepcionista havia acabado de chegar de Cracóvia no mesmo ônibus que eu. Leslie é francesa e trabalhava nos hostels como voluntária para ganhar a hospedagem. Esse serviço é bem usado lá fora, e se você tem interesse um dos sites mais famosos é o WorldPackers (que também funciona no Brasil).

Como os hóspedes ainda não tinham feito check out, eu deixei minhas coisas na recepção, tomei um banho, e saí em direção ao ponto de encontro da Free Walking Tour.

Para minha surpresa logo descobri que Budapeste era repleta de fontes naturais de água potável, e numa delas era onde aproximadamente cem pessoas haviam se reunido para a caminhada. Era tanta gente que os guias dividiram o grupo em quatro. Em contraste com os dias chuvosos de Cracóvia, o sol dominava Budapeste. Isso sem dúvida contribuiu para que o dia fosse muito proveitoso.

Nós descobrimos muito sobre a cultura húngara: como eles são supersticiosos (com estátuas!), poupadores, e bem acolhedores. Conhecemos também algumas palavras do dificílimo idioma, e a história do país que já passara por poucas e boas nas mãos de conquistadores. Pra se resumir a Hungria já foi ocupada pelo Império Otomano (Turcos), Regime Nazista (de quem foi aliada), e depois pelo Comunismo de Stalin.

Na caminhada também conhecemos lugares de cair o queixo como a Basílica de St. Stephen, e atravessamos à famosa Chain Bridge, de onde se tem uma bela vista do rio que corta a cidade e suas embarcações. Do outro lado do rio Danúbio (rio que deu origem a valsa Danúbio Azul), conhecemos o monumento “0 km” do país, de onde toda a Hungria começou.

No passado Budapeste era duas cidades dividas pelo rio: Buda e Peste. Com a construção das pontes as cidades se uniram. Ainda hoje se fala “lado Peste”, ou “lado Buda” para se referir as antigas cidades. E assim como eu também perguntei, a palavra Buda é uma palavra húngara e não tem nada a ver com budismo.

No lado Buda, subimos as escadas do alto morro por uma bela vegetação até chegarmos ao completo do Castelo Buda (Castelo Real). O Castelo já fora morada dos reis da Hungria na monarquia. No mesmo complexo também está o museu National Gallery, e o Palácio Sandór, residência oficial do presidente da Hungria, e a estátua Turul, uma espécie de falcão símbolo do país.

Chain Bridge, do lado Buda.
A caminhada se encerrou em frente ao Fisherman's Bastion (onde tive uma linda vista da cidade) e a Mathias Catedral, que além da Catedral também era um Museu Eclesiástico de Arte, com muitos artefatos da história nacional, formação do império e da história católica. Logo em seguida fiz então uma excursão ao museu: uma visita interessante pela história do país, com lindos ornamentos medievais e até uma réplica da coroa real.

Ao final da exibição no museu eu estava faminto, mas com vontade de explorar ainda mais, desci as escadarias do Fisherman’s Bastion, voltando para a região de onde saiu a primeira Walking Tour. Estava quase na hora de começar a próxima caminhada (de um total de três), então o que eu fiz para enganar a fome foi comprar iogurte e sementes numa grocery store. Todas as embalagens estavam em húngaro, e acabei comprando um iogurte doce demais, mas tudo bem. Uma dica importante é levar talheres de plástico na mochila para ocasiões como essa, o que eu não tinha.

Palácio Real
Quando o pessoal começou a se juntar para a Walking Tour do período da tarde, vi que um casal de idosos que estava de manhã também havia voltado. Gostei de ver a animação deles! Nós conversamos um pouco e comentamos o quanto a caminhada pela manhã fora muito legal. Eu me juntei então a Jewish Walking Tour, para conhecer mais da história dos judeus em Budapeste.

Na caminhada conheci a três principais Sinagogas, que dentre elas a Grande Sinagoga, que é a maior da Europa, e a segunda maior Sinagoga do mundo (a maior está em Israel). Aprendi também como a perseguição aos judeus já vinha desde muito antes do Nazismo, e eles não eram autorizados a viver dentro dos muros da cidade. Parte disso em função da participação dos judeus na condenação de Jesus Cristo.

Réplica da Coroa Real
Por último encerramos no badalado Jewish Quarter que há poucos anos atrás estava totalmente em ruínas por causa das guerras. Hoje o bairro se tornara a vida noturna mais badalada da cidade, e a história dessa reconstrução se mistura com a história dos Ruined Bars, e principalmente o Szimpla.


O Szimpla foi o primeiro Ruined Bar da cidade, que recebem este nome por terem transformado prédios abandonados em locais cheios de vida e personalidade. Para se ter uma noção da sua importância, o Szimpla foi considerado pelo guia Lonely Planet como o terceiro melhor bar do mundo.
E não é exagero, o lugar é sensacional. Em resumo há diversos ambientes amplamente decorados com muito charme e autenticidade. Além de atividades que vão de feira de produtos orgânicos, estúdio, projeções de filme, exposições de arte local, e muitas outras coisas. E claro que como eu gostei tanto do lugar, não pude sair sem experimentar o chope Szimpla e o tradicional Goulash (uma sopa de carne e legumes apimentada com páprica).


The Great Synagogue
Chegando ao fim da minha caminhada de estômago cheio, eu retornei ao hostel para fazer o check in, tomar um banho, e me arrumar para um Pub Crawl (um evento onde você se reúne com outras pessoas para ir aos bares). Porém alguns problemas me levaram a desistir de participar. Primeiro o valor de um Pub Crawl em Budapeste estava o mesmo preço de Berlim (sendo a segunda uma cidade mais cara). Também em mais de meia hora de espera não havia aparecido ninguém, e o legal de um Pub Crawl é interagir com pessoas. Então resolvi voltar e ir ao bar por conta própria.

Lembra-se da recepcionista que fiz amizade? Então, chegando no hostel a Leslie me disse que nas segundas feiras todos vão ao Kuplung, onde as bebidas estão a 50% do valor a noite toda. Eu esperei o expediente dela acabar e fomos juntos ao bar, que também ficava muito perto dali no Jewish Quarter.

Escadas do Fisherman's Bastion
O bar estava lotado, e as bebidas realmente eram baratíssimas. Eu me lembro de tomar chope a 250 florins (menos de 1 euro) e dose de Jack Black a 390 florins. Dá pra imaginar como a noite foi animada né? Fizemos amizade com uns italianos muito divertidos também e não pensamos duas vezes em ir para a pista de dança. Eu sou descendente de italiano, então tivemos muito assunto e fizemos boas piadas sobre o estereótipo. E eles bebem bem! As duas italianas tomavam uma dose de tequila atrás da outra!

E que dia foi esse! (respira) Após passar o dia todo caminhando e conhecendo a cidade, e a noite me divertindo muito, eu tive a sensação de que até então era o que mais tinha aproveitado nessa viagem. Engraçado pensar que chegando ao meu décimo dia de viagem, a metade das minhas férias, eu já estava me sentindo um viajante experiente. Digo não no sentido prepotente, mas de autoconfiança mesmo. Eu sabia exatamente o que queria, e como aproveitar ao máximo aquela cidade. E mais precisamente, no final da noite, deitado na minha cama, eu estava fazendo rotas no meu mapa do que faria no dia seguinte. Eu sorria comigo mesmo, curtindo o meu momento de plena satisfação e cansaço. E assim, juntando minhas energias para o dia seguinte eu dormi profundamente...


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